vEveresting: à conquista das montanhas virtuais

vEveresting: à conquista das montanhas virtuais

Há já uns meses que andava a matutar na ideia de fazer o vEveresting. Depois de o ter feito na estrada, em Junho de 2023, decidi desafiar-me novamente, desta vez na versão virtual. Neste artigo fica a saber tudo sobre mais esta jornada épica em cima da bicicleta. E se também tu pensas em desafiar-te a chegar ao topo do Everest, este artigo é para ti.

Para quem só agora descobriu o conceito do Everesting, trata-se de um desafio à escala mundial, que consiste em escolher uma subida, em qualquer parte do mundo, e repeti-la consecutivamente, numa única atividade, o número de vezes necessário para atingir 8.848m de desnível acumulado, o equivalente à altitude do Monte Everest. É considerado por muitos o desafio de subida mais difícil do mundo, e só isso já diz tudo!

Com a chegada em força das plataformas virtuais como o Zwift ou o Rouvy, também este desafio se adaptou a essa nova realidade, surgindo assim a versão virtual, que é em todo semelhante à versão real, apenas com a diferença de ser feita em ambiente virtual. Mas se pensas que pelo facto de ser virtual, o vEveresting é mais fácil, desculpa desiludir-te, mas estás redondamente enganado!

Além das mesmas regras que regem o Everesting feito na estrada, a versão virtual tem que ser feita num smart-trainer, com a dificuldade ajustada a 100%, para que sintas a dureza da subida e o desafio seja o mais aproximado possível da realidade. Também o teu peso deve ser medido e ajustado na aplicação, no dia do desafio, para que seja o mais real possível. Trata-se de um desafio de superação pessoal, por isso enganar o sistema para facilitar seria apenas enganar-te a ti próprio.

A minha plataforma virtual de eleição é o Zwift. Já o utilizo há alguns anos, e nos meses de Inverno é lá onde faço os meus treinos de final de dia, assim como nos fins-de-semana de chuva, em que ir para a estrada não é opção. De entre as várias subidas disponíveis, a minha escolha recaiu sobre o Alpe du Zwift, uma reprodução fiel da icónica subida do Alpe D’Huez, em França. São 12.2Km de extensão, com 8.5% de inclinação média e com 1036m de ganho de elevação. Assim, feitas as contas, necessitava de completar 8 subidas e meia para conseguir atingir os 8.848m de desnível acumulado.

Neste tipo de desafios a parte mais difícil é tomar a decisão de o fazer. Trata-se de um desafio em que a parte psicológica tem um grande impacto, talvez mais que a componente física. E confesso que a decisão de fazer o vEveresting foi bem mais fácil de tomar do que a de fazer o Everesting na estrada. A experiência anterior permitiu-me encarar este desafio com mais certezas sobre as minhas capacidades e sobre aquilo que era necessário para o conseguir completar. Ainda assim os receios eram muitos, principalmente pelo fato de a minha atividade mais longa no turbo-trainer ter sido de “apenas” 4 horas, quando a perspectiva de conclusão deste desafio apontava para 12.

O fato de poder fazer o desafio em casa tornou a preparação e toda a logística envolvida muito mais fácil. O risco de me esquecer de alguma coisa era nulo e os efeitos da meteorologia não entravam sequer na equação. Além disso, o conforto extra de ter uma casa-de-banho, o frigorífico e a máquina de café logo ali ao lado, davam uma perspectiva ainda mais animadora.

O plano de treinos não foi delineado tendo em conta este desafio. Apenas fiz alguns ajustes nos dias anteriores, de forma a reduzir a fadiga e chegar ao dia com as pernas o mais frescas possível. No fim-de-sema anterior fiz duas subidas ao Alpe du Zwift, para aferir o pace e estimar o tempo que iria demorar em cada uma das subidas. Preocupou-me a cadência baixa que tinha que meter para manter os valores de potência abaixo dos 3W/Kg, e quais as consequências que isso poderia ter nos músculos e eventualmente joelhos, numa fase mais adiantada do desafio. Para tentar minimizar troquei a cassete de 28 dentes por uma de 30, que utilizo habitualmente na estrada.

A alimentação foi talvez a maior das minhas preocupações. No Everesting que fiz em Junho passado, a partir de certa altura deixei de conseguir comer, o que acabou por tornar a parte final do desafio bastante mais dura do que poderia ter sido. Na altura cheguei à conclusão que o problema se deveu ao excesso de doces e mesmo de comida. A ânsia por hidratos e energia sempre disponível levou-me a apostar em excesso em barras, géis e outros alimentos e bebidas doces, levando-me a um estado de saturação. Desta vez decidi apostar na variedade de alimentos e numa alternância entre doces e salgados. Também na quantidade decidi não entrar em exageros. Durante as subidas a minha única fonte de energia seria a bebida energética, ficando os alimentos sólidos para as fases de descida.

Optei por começar cedo. Deixei tudo preparado na véspera, e já com o pequeno almoço tomado, às 6:00 da manhã estava em cima da bicicleta.

Apontava para um tempo de subida a rondar os 70 minutos, e a primeira fez-se em pouco mais de 68 minutos, a cerca de 2.8W/Kg, servindo assim de bitola para as seguintes. O objetivo era começar com cautela, para que não tivesse que pagar mais tarde, um inicio mais entusiasmado, enquanto as pernas estavam frescas.

Nas descidas aproveitava para comer, para alongar e para trocar de roupa. E que bem que sabia cada troca de roupa. O facto de tirar a roupa encharcada em suor e vestir uma seca e limpa dava uma sensação de conforto indescritível.

A experiência dizia-me para encarar o desafio por etapas, sem olhar para o que faltava por concluir, e foi dessa forma que cumpri a primeira metade do desafio. Os tempos de subida estavam bastante aproximados e senti-me sempre bem. À hora do almoço já tinha 5 subidas concluídas, faltando-me apenas 3 subidas e meia para o objetivo.

Antes de iniciar a minha sexta ascensão ainda consegui sentar-me à mesa uns minutos, e comer umas garfadas de arroz e um peito de frango grelhado. E que bem que me soube esse “almoço”.

A partir daí, e já em contagem decrescente com o objetivo em vista, consegui subir um pouco mais o ritmo, e a sétima subida foi feita em menos de 65 minutos, a mais rápida de todo o desafio.

Faltando uma subida e meia sentia que o desafio dificilmente me escaparia. Sentia-me com energia e as pernas respondiam bem, por isso continuei com o ritmo que trazia das subidas anteriores, e rapidamente iniciei a contagem decrescente para os últimos metros de desnível acumulado.

Conclui assim o desafio com 215Km, 8900m de desnível acumulado, em 11h30 minutos.

Para quem se interessa por números, deixo os dados das subidas:

#1 68m22s 2.8W/Kg 58rpm

#2 67m17s 2.8W/Kg 59rpm

#3 67m20s 2.8W/Kg 58rpm

#4 67m36s 2.8W/Kg 59rpm

#5 67m39s 2.8W/Kg 59rpm

#6 67m47s 2.9W/Kg 61rpm

#7 64m58s 2.9W/Kg  61rpm

#8 66m11s 2.9W/Kg  59rpm

#9 37m21s 2.8W/Kg 58rpm

Em resumo, posso dizer que o vEveresting correu bastante bem, até melhor do que esperava. Senti-me bem ao longo de todo o desafio, sempre com força e energia positiva. Não me recordo de qualquer momento de fraqueza, em que me tenha passado sequer pela cabeça a ideia de desistir. Comparando com o Everesting que fiz na estrada, sinto que neste sofri menos e que não levei o meu corpo tão ao extremo, como aconteceu nesse outro.

Para isso em muito contribui a experiência que já tinha e que foi fundamental para abordar este desafio de outra forma. A boa gestão do esforço na primeira metade e a estratégia de nutrição foram sem dúvida fundamentais. O facto de ter outras formas de entretenimento disponíveis, como a TV, a música e a internet, também me permitiram abstrair um pouco mais da dureza da tarefa que tinha pela frente. Tratando-se de um desafio em que a componente psicológica tem um peso enorme, tudo o que me pôde ajudar a abstrair de pensamentos negativos teve um papel decisivo para este sucesso.

Não houve troféu nem medalha, mas houve sim uma enorme sensação de superação e de realização pessoal. Mais um prova da minha resiliência e, acima de tudo, da minha força mental, que tantas vezes já coloquei em causa. Quando gostamos do que fazemos e a força de vontade é muita, não há desafio que não consigamos conquistar!   

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